
Tudo começa com uma carteira encontrada numa rua do Greenwich Village, um bairro boêmio de Nova Iorque. Jack, o dono da carteira, e Natália são um casal yuppie, ambos um tanto quanto exautos da relação e de suas vidas de conveniência. É por isso que ao conhecerem a jovem e lasciva Elsie Tyler, garçonete em um café naquela área, têm seu cotidiano alterado radicalmente. Enquanto a relação entre Jack e Elsie, agora modelo graças aos contatos de seus novos amigos, passa o romance inteiro buscando uma definição, a jovem e Natália tornam-se mais íntimas a cada dia. Assistindo a esse cenário, Ralph Linderman, quem encontrara a carteira de Jack num dia em que passeava com Deus (seu cão), nutre uma estranha obsessão por Elsie, quem persegue há algum tempo.
Sendo conduzida mais pela caracterização extremamente hábil dos personagens centrais, a trama de “Um rosto na noite” (“Found in the street”) de Patricia Highsmith (de “O Sol por testemunha”, a.k.a. “O talentoso Ripley”) é arrebatadora, sem se valer de subterfúgios apelativos.
O desnecessário subtítulo da versão lançada pela Nova Cultural, “Um eletrizante policial da grande dama do suspense” só serve para atrair um público que muito provavelmente se decepciona com o que encontra pela frente. O assassinato de um dos personagens centrais é solucionado sem muitas complicações, o que provavelmente decepciona aqueles acostumados com romances policiais. Por isso, uma questão fica no ar: por que a sra. Highsmith optara por isso? Certamente, habilidade para constuir uma trama realmente “eletrizante” não lhe faltava (vide toda a sua excelente “série Ripley”).
Uma possível resposta: talvez porque o que ninguém tenha percebido (e o que, na minha opinião, é a causa responsável por uma fraca difusão dessa obra em relação às outras da mesma autora) é que “Um rosto na noite” possivelmente não se trata de um romance policial.
Highsmith sempre investiu muito na configuração de seus personagens. Tanto que toda adaptação cinematográfica de suas obras resulta em espetáculos de interpretação, até mesmo quando do casting fazem parte atores como Matt Damon…rs… As tramas, muito freqüentemente envoltas de mistério e suspense, parecem, muitas vezes, se constituírem de uma preocupação secundária da autora (ok, isso é muito “meu”, logo, sintam-se livres para criticar).
De qualquer maneira, fã ou não de “romances policiais”, sugiro que dê uma chance a esse drama urbano,e que a meu ver, nada tem de “eletrizante policial”.
Creio que será mais fácil encontrá-lo em sebos:
“Um rosto na noite”, de Patricia Highsmith. 338 pág.
Nova Cultural. Tradução: Lila Spinelli.
Obs.: atentem para o nome original, “Found in the street”, que estabelece uma inteligente metáfora com a trajetória de Elsie.
César A. A. Rocha.
